Recomeçar…

A ultima imagem de um sonho que termina...
A ultima imagem de um sonho que termina…

– És uma cobarde, estás a fugir…entregas os pontos, assim sem luta?

 A voz que falava para imagem reflectida para lá do visor tinha uma entoação triste, não parecia zangada, mas triste. 

Aradhana ficou estática, olhando em volta: tinha acabado de colocar no “camião” das mudanças a última peça que faltava e que tinha guardado para o fim… o reduto da sua esperança de um sonho feliz, terminava ali… naquele olhar que lançava ao horizonte onde, afinal, se encontrava o seu coração.

Já não havia retorno. O caminho que resolvera encetar desiludida com tanta coisa que queria esquecer, iria recomeçar a partir daquele momento.

Percorre lentamente a ilha e parte sem olhar para trás. Levava no olhar a última imagem de uma quimera… que afinal não tivera capacidade de concretizar.

Terminava, assim, um ciclo da sua vida que começara por uma utopia, mas acabara na mais profunda desilusão.

O refúgio de muito tempo...
O refúgio de muito tempo…

Há muito que “namorava” aquele local; passara lá muitos momentos, sozinha, fugindo dos locais povoados, quando lhe apetecia estar só. Aos poucos, quase considerou aquele local a sua segunda casa, já que não tivera coragem, durante muito tempo, de cortar pela raiz com o que a atormentava.

Não foi repentina a ideia, mas sempre tivera dificuldades em se libertar das coisas ou das pessoas, mesmo quando sabia que isso a prejudicava. Mil vezes voltara atrás, recuando em decisões tomadas, mas que o seu coração sensível não aceitava.

A mente comanda o coração ou é o coração que comanda a mente? – Perguntara-se muitas vezes.

E de repente concluiu, que já nada mais tinha a esperar e resolvera colocar um ponto final definitivo na sua própria indecisão e partir em direcção ao seu novo arco-íris…

Era madrugada quando se despediu, profundamente agradecida a quem a tinha ajudado a instalar-se no vale que, era agora, o seu sonho: assinado o “contrato” a casa e o local que “namorara” durante tanto tempo, eram finalmente seus.

A miúda e o zelito correm felizes ao seu encontro; o zak dormita pachorrentamente na porta da entrada, indiferente aos miados dos seus companheiros; serão eles, a partir de agora, os únicos a conviverem com ela neste paraíso rodeado de tudo o que a faz feliz. 

Olha em redor e sorri: aqui buscará a confiança de que precisa para prosseguir na caminhada de redescobrir uma nova Aradhana.  

Um novo paraíso...
Um novo paraíso…

Novo sonho, afinal, começara…

Partilhas e sentimentos…

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Os latidos dos seus amiguinhos de quatro patas, que disputavam ao fundo da sua cama, o boneco de peluche que “ela” reclamava só para si, fê-la lentamente abrir os olhos e a luz vinda do ecrã recordou-lhe o seu heterónimo a viver para lá da luz que ofuscava os seus, ainda, sonolentos olhos. Aradhana… pensou, esqueceste-te dos gatitos fora de casa…na tua land…

 

Olhou maquinalmente para o relógio… quatro da manhã… sorriu… ia lá dar um pulinho e guardar os bichanos antes que se perdessem na imensidão do espaço, ou quem sabe, fossem procurar abrigo noutro lado.

 

Abafou a gargalhada que deu quando vislumbrou quem ainda tinha “luz” nas suas janelas e cumprimentou calorosamente cada um dos nomes presentes.

 

– Então, ainda aqui? – Pergunta com um sorriso.

 

E o tempo de conversa decorreu, calorosa, sensível qb, demonstrando que, afinal, os Avatares estão ali, igualmente, com a alma de quem os maneja.  O sorriso, apesar da conversa triste, aqueceu o coração da Aradhana.

 

É  bom ser-se humano, mesmo que não se passe de um boneco articulado, pensava…

 

Entretanto, numa outra janela, a conversa decorria sobre animais… de várias espécimes.

 

Ah… dizia o outro lado, acabaram de me dar um veado, estou a soltá-lo no terreno… e daí ao endereço para ir ver o que mais existia no local de compra, foi a distância de um teleporte.

 

E perto das cinco da manhã o Zak,  um belo labrador amarelo, entrava porta dentro com a finalidade de tomar conta e, manter a ordem, entre o zelito e a miúda que não paravam de discutir, por dá cá aquela palha.

 

Sentada no chão com os seus novos amiguinhos, esqueceu, completamente, os momentos de solidão que nos últimos tempos a tinham acompanhado.

Isso não se faz, After...
Isso não se faz, After…

Zelito não olhes de lado...

Por entre o real e o… irreal.

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 De caneca de café acabadinho de fazer com o seu suave aroma a inebriar-me, olho por entre os vidros da janela da cozinha… o mar, que ao longe me sorri, como que a chamar-me, reflecte o azul do céu por entre o verde das frondosas árvores à minha frente.

Mergulho o olhar naquele mar calmo como se fosse um lençol azul sem qualquer tipo de ondas…que sensação de paz, de plenitude, ele me oferece!

A realidade está ali bem patente: o mar calmo de hoje substitui as ondas alterosas e violentas de ontem, dando uma sensação de tranquilidade ao meu ser.

O Sol radioso, como que a chamar-me igualmente, incide nos meus cabelos; sinto-o como uma carícia e deixo-me embalar por ela.

E um pensamento aflora ao meu espírito… qual a fronteira entre o real e o virtual?

Poderemos ser duas pessoas numa só?

Alguém me dizia ontem, com o carinho que a amizade confere, para que eu, não fosse eu.

Ou seja, que no mundo real fosse eu e que no virtual fosse outra… mas será isso possível?

Como se pode ser duas pessoas diferentes, ignorando cada uma delas, aquilo que a outra é?

Mesmo num mundo de brincadeira como deixaremos de ser nós próprios e passamos a agir como se fossemos outra pessoa?

Olho para lá do mar até onde a minha vista alcança e relembro tanta coisa, passada e presente, que se fundem numa só e penso como seria deixar de ser eu e ser um boneco manejável, sem sentimentos, sem alma, que pudesse só rir e brincar.

Por momentos, recordo a minha ilha do Douro e gostaria de teleportar-me para lá e ficar lá, quem sabe, para sempre.

Um mundo de faz de conta, onde se pode fazer tudo (poder-se-á mesmo?) onde poderemos escolher quem quisermos ser.

Mas afinal, quem escolhe quem?

O real ultrapassa o irreal ou vice-versa? 

“Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa. “Dizia-nos Fernando Pessoa no papel (ou seria avatar?) de Ricardo Reis.

 E continua  Ricardo Reis… 

“Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu ‘screvo.”

Entre o real e o virtual, qual é a fronteira?

Nesta viragem do caminho que a Aradhana resolveu encetar, provavelmente, será isso mesmo que irá descobrir… 

 

Por entre o irreal e o… real.

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despedida

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saudade

Ficou ali sentada olhando as frondosas árvores que em nada lhe recordava estar num mundo irreal.

Do outro lado do ecrã, a mão da pessoa que manejava a figura ali sentada, de cabeça baixa, quase sem vida, oscilava entre a cruzinha do “fechar” e a vontade de ali permanecer.

 Sabia que acabara de cometer o maior disparate de entre muitos que já cometera ultimamente, mas o coração falara mais alto que a sua personalidade rebelde ou, talvez, tivesse sido mesmo a sua personalidade rebelde, a cometê-lo.

Não se importava, afinal. Se não o tivesse feito, ficaria sempre com a pena que não o tivesse tentado, pelo menos, mais uma última vez; o que dissera, dissera-o com o coração… (um sorriso triste aflora o rosto para lá do ecrã, mas afinal os avatares têm coração?!)

Nunca conseguira ser fria ou calculista nos seus sentimentos e agira sempre por impulso e fora esse impulso, que a fizera fazer-lhe a pergunta e dizer o que dissera, expondo-se, afinal, à resposta que sabia de antemão que iria ter; mesmo assim correu o risco, tinha mesmo que o correr, concluíra, tristemente.

Sempre tivera a frieza de raciocínio necessário para manter a cabeça fria ou limpa, como gostava de dizer e era exímia em não mostrar os seus sentimentos, mas afinal portara-se como qualquer outro ser humano tristemente apaixonado.

Nos últimos tempos (meses, anos?) uma modificação operara-se em si; olhava-se ao espelho e não se reconhecia…

Nunca fora tão longe no afecto que dedicara a alguém, desde a sua louca e prolongada paixão, anos atrás, que a impedira de viver, em pleno, muitos anos da sua vida.

Sem contar e quando menos esperava, o seu coração começara a bater de uma forma desenfreada e a contar cada minuto que as horas possuiam… 

A onda que dela tomou conta manietou-a completamente, reduzindo-a como que a uma pequena flor, cujo caule se partiria ao mais pequeno toque – ela sempre tão forte, como seria possível? – 

Pouco a pouco deixou de ser ela, para ser somente um coração a bater, nada na fraqueza do seu coração revelava, afinal, a mulher forte e decidida de outrora, que ultrapassara, sozinha, tantas dificuldades e barreiras.

Deu uma última volta à casa que nos últimos tempos tinha sido o seu refúgio e onde acalentara alguns sonhos que julgara possível, sabendo que teria que ter muita força para dela se desprender.

A decisão estava tomada e tinha que prosseguir em frente e achar, de novo, o seu próprio caminho.

Quem sabe, voltarás a renascer… Aradhana.

Bastava?…

 

Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar
pelo mar. Por um rio ou por uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.
Bastava sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.

(Poema “Bastava” de Joaquim Pessoa)

Este é um dos poemas que mais gosto de Joaquim Pessoa e que me faz recordar certos momentos da minha vida e me transmite uma magia absolutamente inigualável.

 

Ah… desenganem-se!

Não vou falar de poesia, apesar de que muito de mim se situa nesse patamar de que não me consigo separar e, por esse motivo aceitei, não sem uma certa resistência, a minha entrada no Second Life.

Convenhamos, nunca me passaria ter uma segunda vida, mesmo que virtual! Isso não me entusiasmou em primeira mão, por isso, talvez a minha resistência durante algum tempo, em lá entrar.

Lembro-me que quando falei a uma amiga minha neste local virtual, porque gostaria que ela própria entrasse também, ela me perguntou admirada:

– “Mas para que precisas de uma segunda vida? Não estás bem como estás?”

Eu sorri…

É difícil, acreditem, explicar a alguém, que não percebe nada de mundos virtuais, o porquê de se entrar num espaço como este…e, depois, seguem-se as perguntas maliciosas… que temos que responder, com maior ou menor humor, consoante o nosso espírito.

Eu própria, me interroguei muitas vezes, para que precisava de lá entrar!?

Tinha uma séries de blogues para actualizar, onde até poderia colocar os mais variadíssimos temas, apesar de quase todos girarem à volta de poesia e de Poetas…porquê, então, entrar num espaço difícil de manejar, onde não tinha quase ninguém conhecido e onde se calhar, com o meu feitio ultra sensível, só iria ter desgostos?

Três meses se passaram e, sinceramente, ainda não sei se é ou não positiva a minha estadia, mas o que sei é que já faz parte do meu quotidiano abrir o SL, tal como é um hábito diário abrir o correio e os meus blogues pessoais.

Não sei se é um vício, um jogo que nos entra nas entranhas, mas dou por mim, muitas vezes a pensar, nos meus vizinhos do lado, que gostava de mudar a decoração da casa, que gostaria de lá fazer uma festa… (que já fiz) ou ainda, que gostaria de promover este ou aquele evento, claro que, se calhar ligados à poesia… mas não só.

O que poderá dar-nos o Second Life é uma pergunta que muitos farão, mas que só mesmo o tempo pode responder…

A mim… deu-me uma outra forma de sonhar, de voltar a fazer coisas de que gosto, de partir, sentada numa cadeira, à descoberta de mundos, onde eu nunca entraria de outra forma.

momentos na Ilha do Douro

E concretizei o sonho da minha Mãe… ver-me sentada ao piano a tocar… quem sabe… Chopin… o compositor favorito dela.

Mundos imaginários…

Aradhana

Viver num mundo imaginário, qual criança na mais imaginativa das criações, é o oferecimento que fui descobrindo, aos poucos, num mundo que só uma fértil imaginação consegue partilhar com os outros.

Neste mundo imaginário, em que muitos pensam que é meramente um local de desenhos lindos, existem pessoas que pela sua sensibilidade e cordialidade, nos mostram paralelos de beleza e cor, transportando-nos para aqueles sonhos que acalentamos, ainda, no fundo da nossa alma.

Não posso escrever pela experiência de outros, mas sim pela experiência do avatar que vos apresento: a Aradhana.

A Aradhana é igual a si própria, acostumou-se a conviver com a solidão, aliás, gosta muito dessa solidão interior, que a leva a voar por ilhas insondadas, galgando mares desconhecidos, visitando locais onde o rumor do mar se confunde com o canto dos pássaros; e ainda, como ser feminino que é, gosta de ir às lojas, fazer compras, mostrar-se coquete dentro da sua habitual timidez.

Num mundo imaginário, mas comandado por pessoas reais, existe um pulsar de vontades e atitudes, que tal como na vida real, tem o seu sentido muito categórico. É esse o mundo percorrido pela Aradhana, que ofereço nestas imagens e vos convido a visitar: a Alma Portuguesa, no Second Life

Vão ver que vale a pena.

Poderão contar com a ajuda de avatares como a Afro, a Lua e o TP para vos guiarem através de um mundo imaginário que, depois de lá entrarmos, nos custará a deixar.

Agradeço sensibilizada a ajuda dos avatares acima referidos e ainda, a muitos outros, que aqui não faço referência mas que foram igualmente importantes, porque sem essa ajuda este “caminho” não tinha sido percorrido.

 Ainda, uma especial referência, ao mundo imaginário da Bankinha que me reportou, aos momentos felizes da minha infância.

Este é sem dúvida um “mundo” que vale a pena visitar…

ilha_douro1

Viajar no Sonho…

daniel-f-gerhartz

Impossível viajar no sonho
e dele não viver o momento
inteiramente sequioso de ousadia.

Corpo trémulo de magia
que escorre em mãos
liquefeitas de ternuras
tímidas
arrojadas
permissivas.

No viajar da memória
corpos jorram mel
em lábios que se unem
e se desnudam
loucos, sôfregos
na fantasia do sentir.

Num toque de pele
gemendo
arrebatada
de desejos
inconfessáveis
um grito
que antefrui
o momento culminante
que se adivinha.

E no sonho, qual quimera
que se transmuta,
prosseguem os sentidos
da Vida…